terça-feira, 15 de setembro de 2009

Um dia de chuva..

Andando pelas ruas sujas da cidade, já são algumas horas da manhã. Um chuvisco cai, deixando lama na sola dos meus sapatos velhos, e eu estou andando. Pra onde mesmo? Ah, lembrei. Continuo o caminhar na rua de paralelepipdos molhados, enquanto meu casaco fica cada vez mas molhado.

De repente, me deu uma vontade louca de largar tudo. Simples assim. Largar tudo, pegar um ônibus e ir pra um lugar onde eu possa sentar, olhar as coisas, ficar só com meus pensamentos. Não em casa, não quero ir pra casa, mas pra um lugar, um parque, um centro cultural, um metrô, sei lá, qualquer lugar serve. Queria largar tudo porque, só por hoje, nada mais importa. Viver não importa, meu futuro não importar, nem mesmo essa minha irritante febre (agravada pela garganta inflamada e pelo resfriado) não importa. Só o que importa hoje é não se importar com nada. Nada disso importa.

A chuva continua a cair, eu continuo meu caminho. O desejo de partir se foi, durou menos de segundos. No ponto, antes de pegar o ônibus, uma chuva de água escura me molha da cabeça aos pés, jogadas por algum motorista muitíssimo educado e que se esforçou grandemente para não sujar as pessoas no ponto de ônibus. Preciso dizer que adorei?

Pego o ônibus, sento-me no fundo e observo as pessoas. Algumas parecem felizes, outras nem tanto, outras irritadas, outras apáticas. Uma menininha de uns 4 ou 5 anos entra e senta ao meu lado. Ela olha pra mim e sorri. Eu, em um esforço desumano, retribui o sorriso, pois aquele sorriso me pareceu de tal forma mágico que deveria dar o meu melhor num largo sorriso.

- Qual é o seu nome? - ela me pergunta rindo.
- Eduardo. E o seu?
- É Amanda. Com "A", "M", "A", "N"... "D", "A". - ela disse, parecendo orgulhosa de ter conseguido soletrar o nome.
- Nome muito bonito - disse sorrindo.
- O seu também é. Eu gosto.

Logo em seguida, a mãe pediu desculpas pelo atrevimento (?) da menina e desceu do ônibus. Ela acenou pra mim do lado de fora, enquanto o ônibus partir.

Estranho, mas aquela conversa simples com Amanda fez meu dia parecer diferente. Talvez a sua alegria gratuita, sem esperar nada em troca, ou sua inocência, ou mesmo sua espontaneidade. De qualquer modo, fiquei com a imagem na cabeça da Amanda acenando pra mim de fora do ônibus..

Cheguei ao meu destino: minha antiga escola. As coisas por aqui parecem não mudar. Garotinhas histéricas correndo pra cima e pra baixo, garotos que só sabem falar das garotinhas histéricas, gritos, gritos, sinal do intervalo, funcionários grosseiros.. É, as coisas por aqui realmente não mudam. Meus amigos já se foram, não conheço mais ninguem, mas é estranho como o rosto deles parecem tão familiares, como se fossem os mesmo que estudaram em minha época, embora soubesse que eram outras pessoas, mas que agiam do mesmo jeito.

Olhar pra lá me deu uma certa sensação de nostalgia. Me senti tão superior, tão adulto, tão diferente do que costumava ser quando corria pelo pátio a poucos anos atrás. Não sei se isso é bom ou ruim, talvez seja bom. As coisas são diferentes, e parece que, só por hoje, nada importa.

A chuva continuava a cair.
Por que não levei um guarda-chuva?

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Música perfeita hoje..

Via Láctea
Legião Urbana
Composição: Dado Villa-lobos/ Renato Russo / Marcelo Bonfá

Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz

Mas não me diga isso
Hoje a tristeza não é passageira
Hoje fiquei com febre a tarde inteira

E quando chegar a noite
Cada estrela parecerá uma lágrima

Queria ser como os outros
E rir das desgraças da vida
Ou fingir estar sempre bem
Ver a leveza das coisas com humor


Mas não me diga isso
É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto
Isso passa
Amanhã é um outro dia, não é?

Eu nem sei porque me sinto assim
Vem de repente um anjo triste perto de mim
E essa febre que não passa
E meu sorriso sem graça
Não me dê atenção
Mas obrigado por pensar em mim


Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Eu me sinto tão sozinho
Quando tudo está perdido
Não quero mais ser quem eu sou


Mas não me diga isso
Não me dê atenção
E obrigado por pensar em mim
Não me diga isso
Não me dê atenção
E obrigado por pensar em mim

Uma conversa entre VERDADEIROS amigos.. [2]

Como ela consegue? Mesmo depois de tudo, depois de tanto tempo, o elo que nos une parece inquebrável e invulnerável ao tempo e distância. Com uma simples mensagem, ela me fez mais do que a muitos outros não faziam.

"Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar de remar também.

Muito meu pra você."

Te amo, Cine, e nunca me esquecerei, NUNCA.
"Jamais soltaremos as mãos."

Uma conversa entre VERDADEIROS amigos..

- Desculpa está enchendo seu saco, Alê. Por causa de uma bobagem, fiz um circo. - respirei e conclui - A minha idéia era falar contigo pra te ajudar a melhorar e foi justamente o contrário. É a febre, mas isso passa.
Ela riu.
- Que nada, moço. Você nunca me enxe o saco.
("Não precisa mentir", pensei rindo)
- Eu adoro conversar contigo. E eu sou praticamente formada em vida amorosa falida.
Ri alto, não deu para evitar.
- Então somos dois. Graças a Deus, o "mercado" não exige Pós-Graduação.

E assim, ela fez minha noite menos triste.
Por isso que eu te amo, Alê.

Só pra desabafar:

Quando você acha que seu coração está preparado, você percebe que não.

Doeu mais do que imaginava.

Caminho..

- Está pronta?
- Para o que?
- Para partimos em viagem.
- E para onde vamos?
- E isso importa?
- Claro que importa! Como vamos viajar sem saber para onde queremos ir?
- Querida, o destino de nossa viagem não importa. O que importa é o caminho que faremos até chegar lá.
- E se não chegarmos lá?
- Então voltaremos e recomeçaremos a viagem.

Trechos de Caio. F. Abreu

"Você vai me abandonar e eu nada posso fazer para impedir. Você é meu único laço, cordão umbilical, ponte entre o aqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. Você rasga devagar o seu pulso com as unhas para que eu possa beber. Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio no quarto."

***

"Que te dizer? Que te amo, que te esperarei um dia numa rodoviária, num aeroporto, que te acredito, que consegues mexer dentro-dentro de mim? É tão pouco. Não te preocupa. O que acontece é sempre natural — se a gente tiver que se encontrar, aqui ou na China, a gente se encontra. Penso em você principalmente como a minha possibilidade de paz — a única que pintou até agora, “nesta minha vida de retinas fatigadas”. E te espero. E te curto todos os dias. E te gosto. Muito."

***

" ...e queria lhe agradecer pelas boas lembranças, e pelos oito melhores meses da minha vida."

***

"Me explica, que às vezes tenho medo. Deixo de ter, como agora, quando o vento cessa e o sol volta a bater nos verdes. Mesmo sem compreender, quero continuar aqui onde está constantemente amanhecendo."

***

"Tento me concentrar numa daquelas sensações antigas como alegria ou fé ou esperança.Mas só fico aqui parado, sem sentir nada, sem pedir nada, sem querer nada."


***

"E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça - que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca - levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário...por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo."

***

"...pedi uma definição ou me quer e vem, ou não me quer e não vem. Mas que me diga logo pra que eu possa desocupar o coração. Avisei que não dou mais nenhum sinal de vida. E não darei. Não é mais possível. Não vou me alimentar de ilusões. Prefiro reconhecer com o máximo de tranqüilidade possível que estou só do que ficar a mercê de visitas adiadas, encontros transferidos. No plano real: que história é essa? No que depende de mim, estou disposto e aberto. Perguntei a ele como se sentia. Que me dissesse. Que eu tomaria o silêncio como um não e ficaria também em silêncio. Acho que fiz bem."


***

"de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como 'estou contente outra vez."


*

Caio Fernando Abreu

À Srta. Braga, um tratado sobre a solidão.

Em 23 de dezembro de um ano qualquer,

Carta a Srta. Braga,
Apenas um tratado sobre a Solidão.

De onde vem a solidão, e por que temos tanto medo de estarmos sós? A solidão sempre foi ao Homem um sentimento dual. Certas horas, a desejamos com todo o afinco, a fim de sermos deixados para refletir sobre nós mesmos conosco mesmo. Em outros momentos, temos horror à idéia de estarmos sozinhos, talvez até com medo de nos encararmos, ou apenas porque nos conhecemos bem o suficiente e sempre saberemos a resposta que daríamos a nós mesmos se estivéssemos conversando. Em outras palavras, definitivamente, o Homem tem medo de estar só.

Antes de tudo, permita-me esclarecer que não escrevo a senhorita a fim de que leia sobre meus devaneios reflexivos. Afinal, quem perde tempo com algo inútil como a Filosofia? Escrevo apenas na esperança de que, tirando tais palavras e idéias de minha cabeça e expondo-as no papel, possa aliviar meu coração e mente das sobrecargas de uma vida sem sentido. Ser essas letras lhe é enfadonhas, sem pena as deixe de lado, mas espero de coração que possas me entender.

Nesta correspondência, escrevo-lhe para falar da solidão. Sentimento cruel, esse. Acredito que nenhum ser humano deveria sentir tal dor, a dor de estar só. Outros pensadores diriam apenas que o Homem é um ser social, que foi incumbido por Deus a viver em uma sociedade, e por sua psique é tão afetada ao estar só. Eu, como um livre pensador, diria que o Homem não é feliz quando está só, pois tem medo de encarar a si mesmo, e Deus não tem nada com isso.

Não que eu condene isso, de modo algum! Eu tenho meus demônios também, e não são poucos, posso lhe garantir. Também sou Homem, tenho muito medo de encarar a mim mesmo e também tenho medo de estar só. E quando digo de solidão, não quero dizer apenas de estar solteiro, namorando ou casado. A solidão se refere ao fato de não ter ninguém além de si mesmo. Tenho vários amigos, mas poucos com quem posso conversar com um nível de afinidade confortável ao meu coração, e isso me deixa a beira da sanidade, uma vez que preciso de alguém para me ouvir.

Não suporto meus próprios pensamentos.

Classificaria a solidão como uma doença, se a mim fosse dado tal poder. Exagero? Ora, minha cara, pense comigo. Qual mal deixa o Homem em um estado tão crítico de depressão, de modo a que não possa compartilhar de si mesmo ao próximo, se não a Solidão (e agora a trato com “S” maiúsculo)? O Homem frente a si mesmo pensa demais, não só sobre si, mais sobre o sentido da existência, sobre as coisas da vida e outros mistérios da Humanidade, que nem sábios como Aristóteles e Platão tiveram a audácia de enfrentar além de seu próprio íntimo.

Encarar a si mesmo não é tarefa fácil. Entenderia Hobbies dizendo que “o Homem é o Lobo do Homem” como o Homem sendo o Lobo de si mesmo, de seu próprio Eu. O Homem tem uma surpreendente capacidade de destruir a si mesmo, voluntária e involuntariamente. Acho que involuntariamente é pior, pois quando se percebe, geralmente a pessoa já não é mais nem a sombra do que costumava ser. Graças a Deus, sempre há um caminho de volta; um trabalhoso caminho, mas em que se tem a chance de recomeçar.

Se penso e logo existo, preferia não pensar e não existir. A capacidade de pensar em nossos medos e fraquezas causa muita dor em nós mesmo, assim como a idéia de não existir é extremamente confortável. Não me refiro aqui ao suicídio, mas sim a existência de um ponto de vista metafísico. Mas que Homem existe se existe vivendo só, de modo a não ser notado? Se uma árvore cai no meio de uma floresta fechada, onde nenhum ouvido possa ouvir seu ruído, sua queda faz barulho?

Em alguns dias será Natal e as famílias e amigos se reunirão. Não importa, pois muitas vezes pode-se estar em meio a uma multidão, e ainda assim, estar só.

Mas então, o que nos classifica como uma pessoa solitária?
Não sei, e provavelmente nunca saberei.

Mas se lhe serve de consolo, eu sei que sou uma...


Ass: Daquele que ja foi seu amado, Eduardo Costa da Silva.

Escrever é a chave.

Eu não tenho métrica, não tenho estética, não tenho ritmo, nem sei o que, por que ou como escrevo. Não escrevo porque acho bonitinho, nem porque quero parecer intelectual. Não sei o sentido, nem a direção, nem a força aplicada, a impulsão, tração ou o atrito. É físico, é mental, é espiritual.

É emocional também, especialmente emocional.

Sempre me expressei melhor escrevendo do que falando. Escrever me dá tempo para pensar, falar não. Além de que, escrevendo, as possibilidades são infinitas, ilimitadas, incontáveis e inacreditáveis. Costumava dizer que escrevia, pois passava ao papel parte de mim, parte dos meus problemas, parte dos meus pensamentos, e isso me dava um alívio temporário, até voltar tudo outra vez e até que escrevesse de novo.

Escrever não é privilégio dos intelectuais, artistas, sábios, vagabundos e melancólicos. Escrever é uma chave, uma ferramenta, assim como o serrote e a Magia.